Perante a autoridade fiscal
o poeta mostrou o que trouxera:
cadernos de folhas amareladas,
papéis de tamanhos diversos,
tudo cheio de garatujas.
O auditor viu a papelada sobre a mesa;
o que aquilo tinha a ver
com os assuntos pecuniários em pauta?
– Mas o senhor não possui bens,
pertences que transfira à Fazenda?
Afinal – e lhe mostrou o auto do enquadramento –
cá estão leis, decretos e artigos
que o incriminam em débitos!
O poeta olhou para o funcionário federal
e notou alem das grossas lentes esverdeadas
dois olhos que o fitavam com ironia.
Nada tinha de seu
a não ser a imaterial percepção do mundo.
A autoridade fiscal tirou os óculos,
virou-se para o assistente e ordenou:
– Não tem onde cair morto;
confisquem-lhe a Musa.
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GENIAL
ILUSTRAÇÃO: Benício Cunha